Por que escrevo?

Recentemente prestei uma prova e o resultado não foi bem o que eu espera. Momento em que, comecei a questionar minhas atitudes, em especial, aquelas que envolvem a minha prática de escrita. 
Não, isso é uma mentira. Não foi neste exato momento que comecei a questionar minhas habilidades, agora lembro. Em verdade, já o venho fazendo há muito tempo, desde que entrei na universidade, para ser mais específica, e percebi que, não sou tão brilhante assim como pensava e que maioria das pessoas daquele local eram iguais a mim ou melhores em diversos assuntos.

Sinto-me um pouco estranha de estar falando isso, triste até. Não só porque me vi como mais um grãozinho comum de areia em uma praia gigantesca, mas porque senti vergonha da minha íntima vontade de me destacar, de ser melhor, e, mais vergonha ainda, ao perceber a minha derrota diante desse desejo assustador.

Ao compartilhar esses pensamentos com minha mãe, após o resultado não esperado da prova, disse que havia cometido um erro gravíssimo contra mim mesma, "me superestimei", foi quando ela falou algo que se prendeu em minha cabeça:

- E desde quando se ter em alta estima é um erro? Imagina o quão triste seríamos se nos sentíssemos menos do que realmente somos? Temos que nos superestimar, sim - ela completou.

Em um primeiro momento, achei graça do que ela estava falando. Bobagem, pensei. Afinal de contas, em minha cabeça deprimida, se mantivermos as expectativas baixas, o que vier será puro lucro, ao contrário do que acontece (e aconteceu hoje comigo) se preservarmos altas expectativas, momento em que, diante de uma decepção, o sentimento de derrota, por vezes, é grande demais. Assim, fiquei me perguntando: o por que escrevo?

Perdurei esse pensamento pelo resto do dia, até que liguei a televisão e me lembrei do que estava acontecendo ao redor do mundo: pessoas se movimentando para apoiar as manifestações norte-americanas contra o racismo e violência cometida a população negra dos Estados Unidos, em especial, aquela praticada por policiais.

Foi então que comecei a pensar sobre como as minorias (mulheres, pretos, ciganos, LGBT+ ...), todos os dias ouvem daqueles grupos hegemônicos o quão pequenos e indesejados são para estes, fazendo com que essas pessoas se sintam menos do que realmente são. Diante disso, acredito que seja quase impossível que esses grupos não se subestimem. E, ainda assim, ali estão eles, lutando, afirmando os seus espaços, indo contra aqueles que dizem que são menos, quando claramente são perfeitamente suficientes.

Não me entenda mal. Quando digo que me superestimava, não estava dizendo, em contrapartida, que não me subestimo. Somos complexos, nós seres humanos, o que, creio eu, permite-me fazer ambas ao mesmo. Me tinha em grande estima com relação a qualquer assunto que envolvesse literatura, escrita, debates políticos, minha capacidade de argumentação e de rápido aprendizado. Ao passo em que me subestimava no que diz respeito à minha aparência (meu nariz "grande", gordurinhas, cabelo crespo/cacheado, dente torto, tanto que, durante minha adolescência, vivia me escondendo atrás de progressivas, espartilhos e maquiagem), minha força, minha voz, tinha medo do que as pessoas ao meu redor pensavam a respeito de mim, assim como tinha vergonha de me levantar e defender aquilo que acreditava na frente daqueles que não compunham o meu reservado e pequeno círculo de amizade. Me subestimava e ainda me subestimo.

Mas, porquê? Porque tudo ao nosso redor conspira contra nós? Não podemos nos achar grandes, por medo da derrota, ao menos tempo que não podemos nos subestimar porque o sofrimento que isso causa é além das palavras.

Nesse sentido, tive uma epifania. Entre se subestimar ou superestimar, não fico com um nem com o outro. Prefiro estar comigo mesma, abraçar minhas qualidades e meus defeitos, ao mesmo tempo em que devo buscar o melhor de mim para mim. Não preciso ser a melhor estudante da sala, assim como não preciso ser a melhor em coisa alguma. 

Creio que este seja um dos problemas de nossa era, somos bombardeados a todo tempo com a vida de sucesso de quem quer que seja na internet ou na vida real, assim, nossos pais nos cobram, a mídia nos cobra e nós nos cobramos, a cada instante, a ser mais. No entanto, até quanto o "mais" é preciso? Será mesmo que nós nunca seremos o suficiente? 

Eu sou o suficiente?

"Por que escrevo?", me perguntei quando olhei a minha nota. Porque?..."Bem, certamente não para tirar uma nota como essa", ri de mim mesma. 

Uma nota... Algo tão estúpido quanto parece. "Eu posso escrever melhor da próxima vez", reconfortei-me. Queria poder zombar do próprio princípio dessa forma de avaliação. Uma nota, que patético. Mas a verdade, é que, de fato, não escrevo por uma nota, escrevo porque algo dentro de mim sente uma necessidade, um impulso avassalador, de dar vida aos meus sentimentos, fantasias e esperanças, transformando cada um deles em palavras, mesmo que não seja tão boa nisso. 

Isso me fez lembrar de algo que John Green escreveu:
"Somos capazes de sobreviver a essas coisas horríveis, pois somos tão indestrutíveis quanto pensamos ser. Quando os adultos dizem: 'Os adolescentes se acham invencíveis', com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem quanto estão certos. Não devemos perder a esperança, pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos. Não nascemos, nem morremos. Como toda energia, nós simplesmente mudamos de forma, de tamanho e de manifestação. Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e de fracassar. Mas essa parte que é maior do que a soma das partes não tem começo e não tem fim, e, portanto, não pode falhar." (Quem é Você, Alasca?, p.189, 2005)

Quando li isso, pela primeira vez, aos quinze anos, senti um frio na minha espinha, um reconhecimento e entendimento de algo, aparentemente, tão simples, mas extremamente difícil de praticar. Hoje, aos meus vinte anos, isso se tornou um desafio ainda maior, reconhecer a passividade da vida, aproveitar o momento, não me martirizar pelo mínimos erros nem me vangloriar pelos, ainda menores, acertos. E, acima de tudo, não me aceitar (oque implicaria existir algo de errado comigo), mas sim me amar, me orgulhar de mim mesma, usar minha voz e não temer a falha.

Esse foi o meu primeiro post e, sinceramente, como um desabafo, não planejava chegar a lugar algum, mas, de alguma forma, sinto que cheguei a algum lugar mesmo que não saiba ao certo onde. Mas posso te dizer, caro leitor, que aqui é lindo. E, se no fim das contas, aquela minha terceira opção entre se superestimar ou subestimar for romântica demais para alguma situação, escolha se superestimar (ouvindo minha mãe aqui), porque o medo da derrota não pode nos forçar a sentirmos menos do que realmente somos. Posso não fazer a mínima ideia de quem você é, mas sei que você é perfeitamente suficiente, extraordinariamente belo e incrivelmente invencível.💖



PS: Deixo aqui uma musiquinha que amo de uma mulher que me inspira tanto.


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Comentários

  1. Amei o texto, parabéns. São questões muito complicadas mesmo e, por vezes, sem resposta.

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  2. Caramba, acabei de descobrir o seu blog! Adoreeeei! C arrasa, garota!

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